A instabilidade na geopolítica global voltou a mexer com o mercado de metais preciosos. Ouro e prata renovaram recordes históricos nos últimos dias, impulsionados pelo aumento das tensões internacionais e pela crescente desconfiança em relação aos ativos financeiros dos Estados Unidos.
Para Ray Dalio, um dos maiores e mais influentes investidores americanos, fundador da gestora Bridgewater Associates, há um movimento estrutural de diversificação para fora dos ativos americanos, especialmente por parte de bancos centrais.
Ele fez uma avaliação da atual disparada dos preços dos dois metais em uma entrevista durante o Fórum Econômico Mundial de Davos. O megainvestidor afirmou que a valorização do ouro reflete uma realocação mais profunda de reservas globais.
— Quando você vê o ouro subir mais de 60%, não é apenas um movimento de mercado. Ele foi comprado principalmente por bancos centrais, mas também por outros investidores, como forma de diversificar moedas fiduciárias, não apenas o dólar — disse.
'Guerra de capitais'
Dalio chama atenção para o que define como uma “guerra de capitais”, menos visível do que a guerra comercial, mas com impactos relevantes sobre os mercados. Segundo ele, o discurso recente do presidente dos EUA, Donald Trump, no fórum de Davos, que descartou o uso de força militar para tentar assumir o controle da Groenlândia foi importante por sinalizar limites.
— Se houver um movimento militar, isso tem implicações diretas em uma guerra de capitais — afirmou.
Embora Trump tenha recuado em suas ofensivas contra a Dinamarca e outros países europeus em torno da ameaça de anexação da Groenlândia, chegando a mencionar a construção de um acordo com a Otan, o estresse recente foi suficiente para sustentar a forte busca por ativos de proteção.
Poder financeiro europeu sobre os EUA
Segundo análise do jornal The New York Times, o setor financeiro se tornou o principal instrumento de pressão econômica da Europa sobre os Estados Unidos. Investidores europeus detêm volumes expressivos de ativos americanos, incluindo cerca de US$ 2 trilhões em títulos do Tesouro dos EUA, o que confere ao bloco poder de influência sobre o custo de financiamento da dívida americana em um momento de déficits elevados.
Recorde histórico
Na última terça-feira, o ouro ultrapassou pela primeira vez na história a marca de US$ 4,8 mil por onça-troy, acumulando valorização de cerca de 4,47% na semana e 75% em 12 meses, segundo dados da Bloomberg. A prata também avançou de forma expressiva e chegou a US$ 95,78 por onça, com alta semanal próxima de 12%.
A escalada, que já vinha sendo observada ao longo de 2025, ganhou força em 2026 em meio ao aumento das tensões geopolíticas e à agenda de tarifas comerciais, além da intensificação do movimento de diversificação de reservas por bancos centrais, em um cenário de maior incerteza sobre a postura internacional dos Estados Unidos.
'Não é um espasmo temporário'
No Brasil, Luciano Costa, economista-chefe da Monte Bravo Corretora, concorda que o avanço dos metais tem caráter estrutural.
— Não é um espasmo temporário, mas um novo degrau de demanda — afirma o especialista ao GLOBO.
Segundo ele, investidores globais vêm reduzindo a exposição a títulos americanos em um ambiente no qual o risco político passou a pesar tanto quanto o econômico:
— A agenda de tarifas deixou de ser apenas comercial e passou a operar como ferramenta geopolítica. A questão tarifária não vai sair da mesa tão cedo, e isso aumenta a incerteza global.
Nesse contexto, ativos capazes de preservar valor ganham protagonismo, conclui o economista:
— Grandes players buscam proteção fora do sistema tradicional, independentemente das oscilações do dólar ou de eventuais sanções.
Costa destaca que o movimento é reforçado por uma mudança na composição das reservas internacionais, num fenômeno que não se restringe aos governos dos países.
— Antes, a alocação em dólar chegava a 90% ou 95%. Agora, há uma busca clara por diversificação. Seguradoras e grandes gestoras, com volumes comparáveis aos dos próprios bancos centrais, estão seguindo o mesmo caminho — afirma.
'Aposta perigosa'
Sinais dessa mudança já começam a aparecer de forma concreta. O fundo de pensão dinamarquês AkademikerPension, por exemplo, anunciou que pretende se desfazer de títulos do Tesouro americano até o fim do mês, citando riscos de crédito considerados elevados.
Em paralelo, o presidente do UBS, Sergio Ermotti, alertou que o uso da dívida pública dos Estados Unidos como instrumento de pressão política seria uma “aposta perigosa”. Para analistas, episódios como esses reforçam a percepção de que a centralidade dos ativos americanos vem sendo gradualmente questionada.
O professor de Finanças Gilberto Braga, do Ibmec, diz que o comportamento dos metais preciosos reflete um padrão recorrente em momentos de forte volatilidade.
— Sempre que há incerteza sobre o que vai acontecer com os ativos financeiros convencionais, parte dos investidores busca proteção em metais e em ativos reais, que preservam valor ao longo do tempo — afirma.
Braga destaca que, além do papel financeiro, a prata tem ganhado relevância pela demanda crescente na economia real, especialmente em setores ligados à tecnologia, à área médica e à indústria automotiva.
— A prata tem grande liquidez e uma procura bastante consistente, o que ajuda a explicar seu desempenho superior em determinados momentos. Já o ouro é um metal extremamente nobre, mais seletivo, com uso físico mais restrito e um caráter mais financeiro.
'Tendência de alta continua'
Para Mauriciano Cavalcante, economista da Ourominas, o ambiente segue amplamente favorável aos metais. Ele também observa que ouro e prata mantêm seu papel histórico como instrumentos de proteção patrimonial, especialmente em períodos de crises, guerras e conflitos internacionais.
— A tendência continua sendo de alta, com projeções de o ouro atingir o patamar de US$ 5.000 por onça-troy em um curto prazo — afirma.
Cavalcante ressalta que os bancos centrais seguem como os principais motores da alta, devido ao volume elevado de compras, mas que os investidores privados também têm participação relevante na escalada das cotações.
— Esse comportamento não deve se reverter tão cedo. Mesmo com ajustes pontuais, os preços tendem a oscilar em um patamar mais elevado do que o observado anteriormente.
Juros influenciam
O cenário de política monetária também contribui para o desempenho dos metais. Com a perspectiva de juros mais baixos nos Estados Unidos, o custo de oportunidade de manter ativos que não pagam rendimento diminui.
— Com a queda dos juros, o custo de carrego favorece o ouro, que passa a competir melhor com ativos financeiros tradicionais — afirma Luciano Costa, da Monte Bravo, ponderando que isso não representa uma ruptura imediata do sistema monetário global, mas um ajuste tático em curso.