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O Globo - Roberto Malfacini Jr. (27/01/2026)

Dólar cai 1,41%, fecha a R$ 5,20 e atinge menor nível em 20 meses

Movimento foi puxado por fraqueza global da moeda americana, especulações sobre intervenção no Japão e maior apetite por emergentes

O dólar encerrou o pregão desta terça-feira em queda de 1,41% frente ao real, cotado a R$ 5,20, o menor patamar em 20 meses. A última vez que a moeda americana havia fechado abaixo desse nível foi em 28 de maio de 2024, quando terminou o dia em R$ 5,15. No exterior, o DXY, índice que mede a força do dólar frente a uma cesta de divisas, recuava 0,82% no horário do fechamento, aos 96,25 pontos, no quarto dia consecutivo de baixa.

Segundo o economista-chefe da MonteBravo Corretora, Luciano Costa, o movimento foi puxado principalmente por fatores externos.

— Foi um movimento essencialmente global. O dólar vem se enfraquecendo de forma relevante lá fora, e a origem dessa mudança está, sobretudo, nas especulações sobre uma possível intervenção cambial no Japão — afirma.

Na última sexta-feira, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, dissolveu o Parlamento do país e abriu caminho para eleições nacionais em 8 de fevereiro. De acordo com especialistas, a decisão foi interpretada como uma tentativa de capitalizar seus altos índices de aprovação para formar um Legislativo majoritariamente alinhado ao governo, o que facilitaria a aprovação de projetos.

Segundo Costa, a medida gerou desconforto entre investidores e contribuiu para a desvalorização do iene, que já vinha enfraquecendo frente ao dólar desde que Takaichi assumiu o cargo, em outubro.

Esse movimento, no entanto, foi parcialmente revertido na segunda-feira, após rumores de que os Estados Unidos poderiam coordenar uma intervenção cambial com autoridades japonesas para apoiar a moeda local. A possibilidade fez o iene avançar ao maior nível em dois meses, depois de ter tocado o menor valor em 18 meses no início de janeiro. No mesmo período, o dólar se desvalorizou pelo terceiro dia consecutivo no mercado global, chegando ao menor patamar em quatro meses.

Sinais de que Tóquio e Washington estariam monitorando conjuntamente as taxas de câmbio aumentaram a volatilidade nos mercados, uma vez que operadores passaram a interpretar os movimentos como preparação para uma ação direta. Uma eventual intervenção coordenada entre EUA e Japão daria às autoridades maior capacidade de dissuadir movimentos especulativos.

— O sinal mais importante é a coordenação de políticas — disse Daniel Baeza, vice-presidente sênior da Frontclear, à Bloomberg. — Se os mercados interpretarem essa articulação como uma disposição para tolerar condições globais mais frouxas para o dólar, especialmente em conjunto com uma postura mais suave do Federal Reserve, isso pode reforçar a pressão de baixa de curto prazo sobre a moeda americana.

Nesta terça-feira, autoridades japonesas confirmaram uma coordenação estreita com os Estados Unidos no tema cambial, mas evitaram cravar qualquer intervenção direta.

Além do impacto sobre a moeda japonesa, a forte desvalorização do dólar levou o ouro a renovar máximas históricas, superando os US$ 5 mil por onça-troy, enquanto a prata acumulou alta de cerca de 6%.

Questionado por repórteres em Iowa sobre o enfraquecimento da moeda americana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que não está preocupado com a desvalorização do dólar:

"Não, eu acho que está ótimo", disse. "Olhem para os negócios que estamos fazendo. O dólar está indo muito bem".

Os comentários ocorreram no momento em que o índice Bloomberg Dollar Spot registrava sua maior queda em quatro dias desde o anúncio de tarifas amplas em abril. O indicador atingiu a mínima da sessão logo após as declarações do presidente.

Para o professor de Finanças do Ibmec, Gilberto Braga, a tendência no curto prazo é de manutenção de um cenário de dólar mais fraco e, consequentemente, maior valorização de economias emergentes.

— Ainda que se espere algum grau de oscilação, o mercado parece mais acostumado aos movimentos políticos e econômicos mais agressivos de Trump, o que traz certa previsibilidade e reduz a volatilidade da divisa — diz.

Na direção oposta, o Ibovespa teve forte desempenho no pregão. O principal índice da Bolsa encerrou o dia em alta de 1,79%, aos 181.919 pontos, em novo recorde de fechamento.

Segundo especialistas, o avanço foi impulsionado pelo elevado fluxo de capital estrangeiro, reforçado pelo enfraquecimento global do dólar, além de dados do IPCA-15, a principal prévia da inflação, terem vindo abaixo do esperado.

— Essa valorização dos mercados emergentes, especialmente do Brasil, onde a taxa de juros segue elevada, tende a perdurar nos próximos meses, reforçada pela fraqueza do dólar — afirma Braga.