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Valor Econômico - Jéssica Sant’Ana (28/01/2026)

CAF ocupa espaço deixado por bancos multilaterais

Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe vem se expandindo e quer incentivar a integração regional

Em um contexto global marcado pelo ressurgimento do unilateralismo, o CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe) tenta se posicionar como um dos principais instrumentos de articulação dos países da região. O objetivo não é ser apenas um financiador, mas também um parceiro para a integração regional, preenchendo uma lacuna deixada pelos demais bancos multilaterais que atuam no continente.

“O CAF tinha um papel menor na questão regional e uma capacidade de financiamento também menor. Nos últimos anos, o banco está expandindo em função das necessidades crescentes da região por mais financiamento e porque as demais instituições multilaterais, especialmente o Banco Mundial, mas também o BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], estão um pouco pressionadas para fazer frente às necessidades que se colocam na região”, explica o economista Rogério Studart, sênior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e ex-diretor-executivo no BID e no Banco Mundial.

Ele lembra que o CAF tem papel de destaque no financiamento de projetos de infraestrutura e logística, inclusive ligados a bem-estar social, como saneamento básico e mobilidade urbana, enquanto os demais bancos multilaterais se afastam de alguns projetos diante dos riscos envolvidos. “O CAF sempre esteve ligado a esses projetos, nunca teve medo de assumir. Não me espanta que eles estejam ganhando fatias de mercado" - afirma Studart.

O professor de economia do Ibmec-RJ Gilberto Braga diz que o CAF ganha ainda mais importância diante da agenda unilateral defendida pelo presidente dos EUA, Donald Trump. “O CAF ganhou uma importância que não tinha nos últimos anos, principalmente agora diante da política externa e econômica americana. O CAF é um lugar onde os Estados Unidos não têm direito de voto, porque não são membros integrantes. Então a gente observa que existe um ambiente favorável ao princípio de conversações e de alinhamentos de pautas comuns da região.”

Um exemplo é o Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe 2026, que acontece nesta quarta (28) e quinta-feira (29) na participação de sete chefes de Estado, dois vencedores do Prêmio Nobel de Economia e mais de 2.500 especialistas globais. Vem sendo chamado nos bastidores de “Davos da América Latina”, numa referência ao Fórum Econômico Mundial.

Embora haja países com visões políticas divergentes, Braga vê espaço para que a região consiga buscar uma agenda comum. “Os países têm interesses regionais que devem superar essas divergências ideológicas.

Então, o CAF permite, pelo menos, o início de uma conversação sobre o que esses países podem trabalhar juntos na pauta econômica e naquilo que, por divergências ideológicas e políticas, permanece separado.”

Studart acredita que pode haver dificuldades em algumas pautas. Mas, até por uma questão fronteiriça, os países precisam de integração regional se quiserem expandir seus comércios. “Eu acho que [a existência de espectros ideológicos diferentes] pode dificultar o diálogo, mas a necessidade é tão premente. O realismo acaba se impondo à ideologia”, diz o sênior fellow do Cebri.

Criado oficialmente em 1968, com início das atividades na década de 1970, o banco era focado inicialmente em promover a infraestrutura de países andinos. A partir da década de 1990, começou a sua ampliação, com a entrada de novos sócios. Desde 2021, vem ampliando seu capital e também as áreas atendidas.

Por exemplo, a participação acionária passou de 19 países em 2021 para 24 em 2025. Em 2021, foi aprovado uma capitalização histórica de US$ 7 bilhões, complementada depois por US$ 3,6 bilhões em novo capital comprometido pelos países. O CAF também registrou nos últimos anos melhorias nas notas das agências de classificação de risco e três revisões para perspectiva positiva. Entre as principais, a S&P elevou a nota para AA+ e a Moody’s revisou para perspectiva positiva.

Com isso, o banco tem conseguido fazer mais captações no mercado privado, a um custo mais baixo. Desde 2021, foram realizadas acima de 35% desde 2023 e, em 2025, alcançou 50% do total dos desembolsos.

Com mais recursos, o banco desembolsou cerca de US$ 45 bilhões nos últimos anos para financiar projetos da região. A instituição também tem financiado projetos em áreas diversas, como transição energética, infraestrutura física e digital, bem-estar social inclusivo, produtividade e internacionalização. O objetivo é que 40% do seu financiamento seja destinado a projetos verdes.

“O CAF é uma é uma instituição 100% latino-americana, tem grau de investimento, captando muito barato. É a única experiência institucional de integração latino-americana que deu certo nos últimos 20 anos, que não só se manteve nesse período, como cresceu. E está crescendo no vácuo de desmonte das outras instituições”, afirma o economista Ricardo Sennes, diretor da Prospectiva Public Affairs Latam, que acompanha a região.

No Brasil, o CAF vem financiando, principalmente, projetos nos municípios, com perspectiva de servir de modelo para toda a região. A proeção é que a carteira consolidada no país alcançou US$ 3,6 bilhões em 2025, alta de 11,5% em relação a 2024, posicionando o país com quarta maior participação na carteira total do CAF e o segundo maior crescimento acumulado para o período 2021-2025, perdendo apenas para a Colômbia.

“O CAF é um parceiro estratégico para o Brasil, ao viabilizar investimentos públicos e privados alinhados às prioridades do país e da região, com destaque para o desenvolvimento urbano e a transição energética. Com integrantes em toda América Latina e Caribe, o banco tem papel central na integração regional e no desenvolvimento sustentável”, afirmou, em nota, a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. A sua pasta é a responsável pelo relacionamento do Brasil com bancos multilaterais.