O sistema de consórcios fechou o ano passado com um recorde histórico. Segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), foram vendidas 5,16 milhões de cotas — 15% acima do total de 2024. O destaque, como é tradicional, foi o consórcio de veículos leves, com 1,91 milhão de cotas comercializadas.
Em um consórcio, pessoas físicas e jurídicas formam grupos a fim de autofinanciar a compra de um bem ou serviço. Elas pagam parcelas, cujos valores são colocados em cartas de crédito, entregues mensalmente a um número pré-determinado de participantes.
Sem os juros típicos do financiamento bancário, os consórcios se tornam mais atrativos quando a Selic está em alta (em 2025, encerrou em 15%). Mas, para a Abac, o motivo principal do “boom” do setor vai além disso.
— O brasileiro está se planejando mais. Em vez de entrar num financiamento, ele prefere o consórcio, que é uma forma mais econômica de alcançar seu objetivo — avalia Luiz Antônio Barbagallo, economista da Abac.
Os contemplados com as cartas de crédito são definidos por sorteios. Mas a ordem também pode ser influenciada por lances: quem tem dinheiro guardado oferece um valor para ter prioridade na aquisição, adiantando o pagamento de suas parcelas.
— O consórcio funciona como um mecanismo de disciplina financeira, com custo total menor do que o de um financiamento bancário. Em contrapartida, tem um custo indireto relevante: o tempo, pois não há garantia de quando a contemplação ocorrerá antes do fim do grupo — diz Hugo Garbe, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Tudo pode ser adquirido
Além de carros, podem ser adquiridos por consórcio móveis, imóveis, celulares e eletrodomésticos, entre outros. Em geral, os grupos se dividem por segmentos, como veículos leves, motocicletas, imóveis. A carta de crédito, recebida após a contemplação, não está associada a um produto, e há certa flexibilidade para usá-la, explica o professor Gilberto Braga, do Ibmec-RJ:
— O contemplado pode escolher o que comprar (dentro do segmento) ou receber o valor da carta de crédito em dinheiro (após 180 dias) e mudar a natureza do bem. Na escolha do bem, havendo diferença de valor, a quantia que faltar será paga diretamente pelo consorciado.
Celulares, cursos de graduação, viagens, reformas e até cirurgias plásticas já têm consórcios.
— A maior procura é por veículos leves: 42%. Em segundo lugar, estão as motos. E depois, imóveis, mas eles devem subir no ranking logo — prevê o economista Luiz Antônio Barbagallo.
Pontos que exigem atenção
A administradora - Para Garbe, escolher um consórcio exige analisar a administradora. O critério mais importante é chegar a empresa está autorizada pelo Banco Central (bcb.gov.br/meubc/encontreinstituicao), além de ter boa reputação, histórico sólido e baixo volume de queixas. Também é essencial comparar taxa de administração, fundo de reserva, regras de lance e entender se o grupo é financeiramente saudável.
As regras - Antes de entrar num grupo, Braga indica também verificar o prazo do consórcio, se as prestações cabem no orçamento e se o valor da contemplação é suficiente para a concretização dos planos.
Os reajustes - Falando nas parcelas, Garbe lembra que normalmente elas não são fixas, pois o valor da carta de crédito é atualizado ao longo do tempo conforme índices ou preço médio do bem. Isso reduz o risco de defasagem, mas não o elimina: se o bem desejado subir acima da média do mercado, o consorciado pode precisar complementar valores no ato da compra.
E se não pagar? - Segundo o Banco Central, o prazo máximo de inadimplência de consorciado é de três meses, a partir do qual o participante do grupo de consórcio será excluído. Braga explica que, nesse caso, parte do valor já pago pode ser recuperado, mas são descontados taxas de administração, seguro e multa. O prazo de devolução está em cada contrato e pode ser demorado.
Inadimplência no grupo - Já em caso de alta inadimplência geral do grupo, quem paga corretamente não perde o direito. Uma parte da prestação paga é uma apólice de seguro para inadimplência, para repor as perdas e o grupo continuar. Mas as contemplações podem ocorrer em menor velocidade, explica Garbe.